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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Filipe Abranches: O Diário de K.

["- Amar ou morrer? Amar ou morrer?
- Amar! Amar!"]

[Sonhar... é tudo o que resta!]

Em 2001, Filipe Abranches, autor de banda desenhada, publicou um livro lindíssimo [edições Polvo], baseado na história de amor de K. Maurício, de A Morte do Palhaço, de Raul Brandão. Citação que escolhe para abrir: "Nada se perde, cada um traz consigo, cometa que arrasta a cauda de lama ou de ouro, o seu passado, vestígios de ideias, crimes, horas de amargura e horas em que se beijaram lábios de mulher por quem a gente se perde... Creia na minha experiência de vida..."

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O pobre de pedir

[Editado postumamente em 1931]
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Há um momento atroz entre nós os dois em que ambos rangemos de dor: é quando eu suspeito e ela suspeita que o nosso casamento foi uma mentira. É quando no silêncio que me impus, de propósito para a fazer sofrer, ela desconfia que nunca a amei - e esse pensamento dói-lhe a ponto de gritar de dor - é quando eu desconfio que tudo em mim foi cenário e que até o amor está fora do meu alcance. E ambos, em lugar de nos recriminarmos, remoemos em silêncio, eu e os meus pensamentos hostis, ela e os seus pensamentos dolorosos. Tenho a impressão que chega a ser cruel. Porque eu despedaço-me e grito. Chego a gritar de dor - e ela cala-se.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Os Pescadores

[À memória do avô, morto no mar]

Tudo aqui é pobre e humilde, mas não grosseiro. Os homens trigueiros, secos e fortes e as mulheres bem lançadas. Mesmo as feias têm um ar de distinção. A família é sagrada. O contacto com a terra obriga o homem a olhar para o chão, o convívio com o mar obriga-o a levantar a cabeça. Quando saem do barco e o encalham, os pescadores não fazem mais nada - deitam-se na areia. O resto compete à mulher: é ela que lava as redes e o peixe, que o salga e carrega e que faz a lavoura da Barrinha. A sorte destas mulheres numerosas melhorou muito desde que a Câmara lhes aforou terrenos no areal para cultivo. São as mulheres também que, depois da sardinha disputada a lanço, a levam à cabeça para a casa da salga, grandes barracões de madeira com manjedouras encostadas às paredes para as bestas e um depósito de sal branco de Aveiro.  É ali que o almocreve a salpica de fresco antes de se meter a caminho, ou as mulheres a lavam em água ensossa. Só em Mira há vinte desses barracões, onde, quando é muita, ou não tem comprador,  a metem em lagares de madeira e em dornas, ficando de salmoura até chegar o Inverno - quando o homem esfaimado a estende num pedaço de pão sabendo-lhe a mais...

Como vive esta gente? Vive com simplicidade nos palheiros, casa ideal para pescadores ou para um velho filósofo como eu.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A farsa

[Capa de Julião Machado para a 1ª edição, em 1903]

Desde pequena que sinto isto aqui a remorder-me, sem descanso, dia e noite, sempre. A inveja é um veneno que me tem azedado toda a existência: é um veneno amargo e sem o qual eu não posso passar. A inveja derranca-me e excita-me, revolver todo o meu ser e faz subir à tona de alma a lama esquecida: exaspera-me todas as feridas: põe-mas em carne viva. Faz-me bem. Desde pequena que toda a gente tem pena de mim e me despreza. Sou assim velha desde pequena: aos onze anos já era reflectida e má como as cobras. - É tão feia, coitadinha! - E esta estúpida piedade acompanhou-me - cresceu comigo, pegou-se-me e queima-me com um vestido de fogo.
- Toda a gente tem tido pena da Candidinha!
Já em pequena trazia este mesmo xaile, este mesmo trapo, que foi crescendo comigo. E não creio - nunca cri em Deus, no Deus dos pobres, no Deus que recomenda a desgraça, a humilhação, a esmola, no Deus que aconselha a resignação e a fome. No Deus a quem as velhas ricas fazem lausperenes e rezam ladainhas; no Deus que as protege -  e que elas têm em casa em ricos oratórios, entre lamparinas e velas de cera, pregado na cruz, com resplendores de brilhantes.
Elas mandam nos padres, confessam-se, vão às missas com vestidos de seda a rugir, dispõem do crucificado, ao qual desde pequena me obrigam a rezar, com os joelhos de rastos nas lajes, doridos e inchados de frio... É desse tempo que data o frio que se me coou até aos ossos e nunca mais me deixou.
O meu filho?... O meu filho alimentei-o com ódio - criei-o à custa da desgraça. Preguei-lhe todos os rancores, todos os exasperos, tudo quanto sofri. Mostrei-lhe a minha alma e a alma dos outros. Fartei-o de Verdade. Disse-lhe, é certo, que neste mundo só o dinheiro vale, e que os pobres são sempre desprezados e calcados. Os pobres nunca têm razão: quebra-se sempre pelo mais fraco. O meu filho qui-lo à minha imagem e semelhança; desejei insuflar-lhe isto que sinto; livrá-lo de ser escarnecido e pobre; de viver de esmolas. Quis que o meu filho fosse eu.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Impressões e Paisagens

[Primeiro livro, de contos, publicado aos 23 anos]

Honesto e leal. Rude, cheio de rugas, bem velho já. Com saúde ainda, os dentes brancos, a barba grisalha, o olhar vivo e moço. Cheia de dedicações a sua vida inteira. Criança ainda embarcara, crestara-se-lhe a pele, fizera-se valente no mar. Sustentava a mãe. Tinha asperezas na voz; âncoras e datas a tinta azul nos braços possantes... Envelhecera, morrera-lhe a mulher, e ele ficara em terra por fim, com o filho e os netos. A neta casara um dia com o Nel, um rapagão que, como ele, partira em seguida na sua primeira viagem de marinheiro para o Brasil. Mas quando a barca voltou, ele não vinha. Lá tinha ficado, uma noite de tempestade, no mar... Envelhecera, não podia trabalhar. O filho, os netos, pescavam, e ele ajudava-os a consertar as redes. Mas o peixe escasseava... E o que ele sofria ao ver os outros trabalhar no batel enquanto ele ficava em casa a remendar as velas. O que ele sofria, bom Deus!...

[Do conto "O Marinheiro"]

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Os Pobres


Triste existência sem ódio e sem gritos. A vida não na entende e recebe cada empurrão com o ar espantado e aflito de quem não compreende. Que mal fizera? Que mal fizera? Pois a desgraça faz rir? O sofrimento faz rir?
E em torno as bocas escancararam-se, ao verem-no gordo, pedinchão e grotesco. Há seres que nascem com esta sina - amargar a vida. Tudo lhe corre torto, até as coisas mais simples, as coisas que para os outros nem sequer existem. Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o deixou? A desgraça escarrancha-se no pescoço de certos homens. E é para sempre, para toda a vida! Nunca mais os larga. Viera a quebra, aflições ainda mais negras que o coração dos outros. Enganavam-no com a alegria de o verem rebaixado e perdido, empurrão daqui, empurrão dali, aos tombos por esse mundo. E ele punha-se a olhar para a desgraça, atarantado e estúpido. Que mal fizera para sofrer? E mesmo a chorar, a sua máscara, de cabelos brancos estacados, fazia rir.
Era dessas criaturas a quem um montão de desgraças torna ainda mais ridículas: a ruína, a miséria e a fome. Enlameado pela vida fora, resignado e chorão, ele aí vai...

[Sobre Gebo, um dos personagens mais comoventes criados por Raul Brandão]

domingo, 26 de setembro de 2010

Húmus

[Edição de 2010]

Qual é a minha experiência da vida? Nenhuma. Qual é a lei que extrais da vida? Nenhuma. Só o espanto. Só uma coisa cada vez maior, sempre assumindo maiores proporções, que sinto desabar no silêncio, mais dourada e frenética que o sonho. Tudo se reduz a coisas a que damos valor, e a coisas a que não damos valor. E entretanto ao nosso lado passa o tropel mágico, desesperado e caótico. Ali fora desabam os séculos e a torrente misteriosa que leva consigo estrelas em vez de calhaus. O jacto de portento vem do infinito e caminha para o infinito, levando consigo a alma, o universo, o lógico e o ilógico, o absurdo e Deus.
Uma vida resume-se em duas linhas, sintetiza-se em dois ou três factos. Se a vida fosse só isso não valia a pena vivê-la. A vida é muito maior pelo sonho do que pela realidade. Pelo que suspeitamos do que pelo que conhecemos. Se nos contentamos com a superfície, não há nada mais estúpido - se nos quedamos a contemplá-la faz tonturas. É por isso que eu teimo que a Morte não tem só cinco letras, mas o mais belo, o mais tremendo, o mais profundo dos mistérios.

sábado, 25 de setembro de 2010

A morte do palhaço

É sempre a mesma coisa há meses, a mesma ansiedade sem causa, que não sei de onde provém. Parece que espero uma desgraça desconhecida, uma catástrofe que ignoro - e que nunca chegará. Que nunca chegará, ouves bem? ... Vivo alheado, o cérebro espalhado por todas as coisas: apenas esta inquietação me domina e me enche. Se saio do sonho, não sei viver. Sobressalto-me com o menor ruído imprevisto: a porta que se fecha é para mim uma angústia. Compreendes isto? Antes a catástrofe que espero caísse sobre mim e me estatelasse no solo, do que este terror contínuo, a inquietação do que é vago, o aflitivo do nada...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Os pobres


Aquele que é um dos melhores livros de Raul Brandão é também um dos mais difíceis de encontrar. Os Pobres. Em compensação, é o único que existe disponível em e-book. É de graça. E tem um prefácio magnífico de Guerra Junqueiro.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Obra publicada

Bibliografia activa

1890 – Impressões e Paisagens
1896 – História d’um Palhaço (A Vida e o Diário de K. Maurício)
1901 – O Padre
1903 – A Farsa
1906 – Os Pobres
1912 – El-Rei Junot
1914 – A Conspiração de 1817
1915 – O Cerco do Porto – Pelo Coronel Owen (Prefácio e Notas)
1917 – Húmus
1919 – Memórias. Vol. I
1923 – Teatro – “O Gebo e a Sombra”, “O Rei Imaginário” e “O Doido e a Morte”
         – Os Pescadores
1925 – Memórias. Vol. II
1926 – As Ilhas Desconhecidas
        –  A Morte do Palhaço e O Mistério da Árvore (2ª edição refundida de História d’um Palhaço)
1927 – Eu sou um Homem de Bem (monólogo teatral)
     –  Jesus Cristo em Lisboa (tragicomédia em colaboração com Teixeira de Pascoaes)
1929 – O Avejão – Episódio Dramático
1930 – Portugal Pequenino (em colaboração com Maria Angelina)
1931 – O Pobre de Pedir (edição póstuma)
1933 – Memórias. Vol. III (edição póstuma)
1981 – A Noite de Natal (em colaboração com Júlio Brandão) – Leitura, introdução e notas por José Carlos Seabra Pereira
1984 – Os Operários – Fixação do texto, introdução e notas por Túlio Ramires Ferro
2000 – Húmus (1917; 1921; 1926) – Edição crítica de Maria João Reynaud

Obras traduzidas

La Farsa (Trad. castelhana de Valentin de Pedro, s/d.)
Los Pobres (Trad. castelhana de Valentin de Pedro, Madrid, Ed. Rivadeneyra, 1921)
Humus (Trad. castelhana de Ribero i Rovira, Barcelona, Ed. Cervantes, s/d.)
Humus (Trad. francesa e prefácio de Françoise Laye, Paris, F. Calouste Gulbenkian/Centre Culturel Portugais, PUF, 1981)
Humus (Trad. francesa e prefácio de Françoise Laye, Paris, Flammarion, 1992)

Bibliografia passiva (selecção)

- Andrade, João Pedro de, Raul Brandão – A Obra e o Homem, 2ª ed., Lisboa, Acontecimento, 2002.
- Antunes, Manuel, “Temperamento e Universo de Raul Brandão”, in Occasionalia, Homens e Ideias de Ontem e de Hoje, Lisboa, Multinova, 1980.
- Castilho, Guilherme de, “A Farsa e a problemática de Raul Brandão”, in Colóquio/Letras, nº2, Lisboa, Junho de 1971.
–  Vida e Obra de Raul Brandão, Lisboa, Bertrand, 1979.
- Coelho, Jacinto do Prado, “O Húmus de Raul Brandão: uma obra de hoje”, in A Letra e o Leitor, Lisboa, Portugália Editora, 1969.
–  “Da Vivência do Tempo em Raul Brandão”, in Ao Contrário de Penélope, Lisboa, Bertrand, 1976.
- Faria, Duarte, “A retórica da antítese: uma introdução a Raul Brandão”, in Outros Sentidos da Literatura, Lisboa, Veja, 1981.
- Ferreira, Vergílio, “No limiar de um mundo, Raul Brandão”, in Espaço do Invisível II, Lisboa, Arcádia, 1976.
- Ferro, Túlio Ramires, Raul Brandão et le Symbolisme Portugais, Coimbra, Coimbra Editora, 1949.
- “Raul Brandão e a Questão Social”, Introdução a Raul Brandão, Os Operários, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1984.
- Lopes, Óscar, “Raul Brandão”, in Ler e Depois. Crítica e Interpretação Literária 1, Porto, Inova, 1970.
- Machado, Álvaro Manuel, Raul Brandão – Entre o Romantismo e o Modernismo, 2ª ed., Presença, Lisboa, 1999.
- Mourão-Ferreira, David, “Releitura do Húmus”, in Tópicos de Crítica e História Literária, Lisboa, União Gráfica, 1969.
- Nemésio, Vitorino, “Raul Brandão, íntimo”, in Sob os Signos de Agora, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932.
- Pereira, José Carlos Seabra, “Introdução a Raul Brandão – Júlio Brandão”, in A Noite de Natal, Lisboa, Imprensa Nacional-Biblioteca Nacional, 1981.
- Picchio, Luciana Stegagno, “O teatro existencial de Raul Brandão”, in História do Teatro Português, Lisboa, Portugália, 1969.
- Pires, A.M.B. Machado, Raul Brandão e Vitorino Nemésio – Ensaios, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988.
- Pires, José Cardoso, “Ler o mar”, prefácio a Os Pescadores, Lisboa, Comunicação, 1986.
Raul Brandão – Teixeira de Pascoaes. Correspondência. Recolha, transcrição, actualização do texto, introdução e notas de António Mateus Vilhena e Maria Emília Marques Mano, Lisboa, Quetzal, 1994.
- Rebello, Luís Francisco, “Um Teatro de Dor e de Sonho”, Estudo introdutório a Raul Brandão, Teatro, Lisboa, Comunicação, 1986.
- Régio, José, “Raul Brandão e o Húmus”, in Ler, nº8, Novembro 1952.
- Reynaud, Maria João, Metamorfoses da Escrita, Porto, Campo das Letras, 2000.
- Reys, Câmara, As Questões Morais e Sociais na Literatura. (IV) Raul Brandão, Lisboa, Seara Nova, 1942.
- Rodrigues, Maria Idalina Resina, “O Húmus, texto de encontro e indecisão”, in Colóquio/Letras, nº45, Lisboa, Setembro 1978.
- Sacramento, Mário, “Chave para Raul Brandão”, in Ensaios de Domingo, Coimbra, Coimbra Editora, 1959.
- Seixo, Maria Alzira, “Raul Brandão (Húmus)”, in Para um Estudo da Expressão do Tempo no Romance Português, Lisboa, Publicações do Centro de Estudos Filológicos, 1968.
- Sérgio, António, “Os Pescadores por Raul Brandão”, in Ensaios, t. III, Lisboa, Sá da Costa, 1980.
- Serrão, Joel, “Raul Brandão: espanto, absurdo e sonho”, in Temas Oitocentistas II, Lisboa, Portugália, 1962.
- Simões, João Gaspar, “Raul Brandão: realismo irrealista”, in Perspectiva Histórica da Ficção Portuguesa. Das Origens ao Século XX, Lisboa, Dom Quixote, 1987.
- Viçoso, Vítor, “Das feridas de narciso ao pânico no reino das ideologias”, Estudo introdutório a O Pobre de Pedir, Lisboa, Comunicação, 1984.
–  A Máscara e o Sonho – Vozes, Imagens e Símbolos na Ficção de Raul Brandão, Lisboa, Cosmos, 1999.

[in Centro Virtual Camões]